Apresentação
“Volta que o mundo deu volta que o mundo dá”, essa expressão da capoeira nos dá um bom retrato do que vamos encontrar nas páginas que se seguem. Uma trajetória que, como um caleidoscópio, vai se engendrando e construindo formas, sentidos, significados, signos e sensações que só fomos compreender no ato de existir, na vivência ou mesmo depois de produzir o presente.
Poder construir um fazer artístico coletivo, situar nosso aprimoramento técnico e resultados artísticos além das mercadorias adquiridas como resultado da lobotomização dos corações e mentes é ponto sine qua non para o coletivo Anônimo. Sempre trabalhando na justa medida das nossas inquietudes, desejos e sonhos.
Para nós, a menor distância pode não ser uma reta, mas inúmeras voltas e curvas que proporcionem o encontro, agregando subjetividades, porque tão importante quanto produzir e criar bens, é que esses bens sejam coletivizados. Este livro é mais uma ação nesse sentido: o encontro e a construção de uma história apoiada em parcerias, solidariedade e muita troca.
O que deveria ser invisível aos poucos foi criando corpo, caminhando transversalmente, à margem. Vemos hoje nossos genes reproduzidos por muitas partes desse vasto mundo, como resultado de um fazer que foi construído pedra por pedra, constituindo camadas de um bolo elaborado e desfrutado por muitos.
A oportunidade de poder refletir sobre os fazeres do Teatro de Anônimo é algo que muito nos orgulha, ainda mais com a luxuosa contribuição de profissionais amigos, irmãos, conselheiros e mestres que são referência para o grupo e para a cena das artes cênicas no Brasil e fora dele.
E é esse bolo que convidamos para saborear. A festa é nossa e todos são bem-vindos, porque aqui é o povo quem produz o show e assina a direção.
Teatro de Anônimo
Quarta-capa
O teatro de Anônimo tem uma relação bastante peculiar com o circo. Esse seu diferencial, essa sua importância e encantamento. Fico aqui com duas idéias. A de anônimo e a de circo. Começo pela segunda. O circo, como o define e experimenta o próprio grupo do Anônimo, é um espaço de circularidade, do encontro, da roda sem hierarquias.
Em roda, a prática teatral se desdobra em possibilidades riquíssimas e bastante específicas: são várias competências e voltagens que precipitam a potência de um trabalho que ignora as formas do juízo de propriedade acanhado e preconceituoso das artes tradicionais. Aqui, temos fundamentalmente o acolhimento do círculo, onde todos têm sua presença criativa. As destrezas do equilíbrio, da força, da mágica, do humor, do administrador regente.
A lógica do circo é a de uma comunidade familiar. O circo, historicamente, é um empreendimento familiar. Não deve ser mero acaso a conhecida fantasia (muitas vezes tornada realidade) de “largar tudo e ir atrás do circo”. Atrás da família circense, do pertencimento. Todos cabem debaixo da lona. Antes de tudo, o anonimato aqui é um eixo conceitual. Espaço onde a autoria não tem muito peso e valor. O importante é a força produtiva do coletivo, da criação onde o fazer se faz na relação com o público. Como na arte popular, na arte da rua.
Segundo João Carlos Artigos, é um equívoco dizer que o Teatro do Anônimo é o circo moderno. Para esse teatro-circo, a meta é ser moderno, engajado no trabalho “anônimo”, coletivo, generoso e, especialmente, explorar sua função de grande catalisador de criatividade e inovação. Um espaço do acolhimento, no qual a grande arte teatral e circense se expressa em toda sua excelência e afetividade.
Esse é o compromisso artístico e ideológico do teatro de Anônimo cujo reconhecimento, nacional e internacional, hoje é um fato notório.