Entrevista Hugo Moss, autor de Como Formatar o seu Roteiro – um pequeno guia de Master Scenes (Aeroplano Editora)
1) Por que caminhos você chegou ao roteiro e a necessidade de publicar esse guia de formatação?
Ao roteiro, através de uma fascinação, desde cedo, por histórias, primeiro na literatura, e mais tarde no cinema. O guia foi uma sugestão do roteirista americano Tom Rickman, que durante o primeiro Laboratório Sundance Brasileiro, em 1996, reclamou que somente 1 ou 2 dos 10 a 12 roteiros participantes, estavam apresentados de uma maneira profissional.
Publiquei o primeiro guia na internet, ainda em 1996. Em 1998 o ampliei e comecei a fazer edições caseiras, distribuídas nas principais livrarias do Rio e São Paulo. Agora foi ampliado novamente e está sendo publicado por uma editora de verdade.
2) Quais as vantagens para a produção de cinema em seguir seu guia?
A formatação padrão que descrevo foi desenvolvida em Hollywood nos anos 30. Desde então quase não mudou, porque 1) é simples e 2) funciona.
A vantagem maior é que ajuda o roteirista a escrever com clareza, ou melhor, fica mais difícil esconder uma história fraca ou pouco cinematográfica atrás de recursos técnicos e de uma apresentação mais literária.
Além disso, com a formatação “correta” uma página representa mais ou menos um minuto de filme e é claro que é fundamental ter uma idéia do ritmo e do tamanho do seu filme. Outra vantagem é que o leitor começa a ler o roteiro num campo visual que lhe é familiar e não se dispersa levando 5 a 10 páginas para se acostumar com um novo estilo individual.
3) Qual sua experiência do ensino on-line de roteiro de cinema?
O site www.roteirista.com tem sido uma experiência ótima porque consegue viabilizar um velho problema: atender os talentos fora do eixo Rio/São Paulo, onde é muito raro ter ensino de alta qualidade no campo de roteiros para cinema. Comecei recentemente a usar o curso on-line como base para workshops ao vivo, onde alunos, depois de fazer o curso, escrevem um pequeno roteiro de curta que é discutido numa oficina ao vivo durante um fim-de-semana de trabalho intenso. Pequenos grupos de 10 a 12 pessoas, bem íntimo.
4) O que é um bom roteiro? É verdade que esse é black hole do cinema brasileiro?
Definir um bom roteiro é difícil, porque pode ser tantas coisas tão diferentes. O que não funciona em cinema, é se apoiar numa linguagem de televisão – a palavra – para conduzir a história, e isto é um problema muito comum. Outra coisa que muitas vezes sinto falta é rigor, disciplina e energia para levar o roteiro a um ponto mais distante nos misteriosos caminhos de criação. Também me parece que em muitos filmes mais atenção e carinho são dados à fotografia, iluminação, música e outros elementos técnicos do filme, do que à história em si.
Agora, se a história sendo contada for deliciosa eu nunca vou reclamar da iluminação. E se não for, eu sempre vou sair do cinema independente do lindo figurino.
5) Há diferenças entre a formatação de roteiros em diversas culturas e países ou é uma linguagem universal?
Há diferenças, sim. Mas Hollywood (quase) sempre foi o centro do mundo cinematográfico e muitas das técnicas e práticas desenvolvidas lá foram adotadas em outros países e culturas. Ainda mais quando funcionam e ajudam, como no caso da formatação de roteiros.
6) Quais as diferenças entre um texto teatral e um roteiro cinematográfico no sentido em que ambos são apenas a base para a criação e o desenvolvimento de uma dramaturgia?
Uma grande diferença é que uma boa peça de teatro é bom de ler. Ela é, digamos, mais “pronta” do que um roteiro. Em geral, um bom roteiro não é especialmente gostoso de ler, ele exige uma atenção muito especial ao visual. O leitor de um roteiro precisa de muito mais imaginação e alguma experiência ou pelo menos interesse especial por cinema, acredito. Uma peça, não. Uma boa peça já é gostosa de ler, tem inclusive mais valor literário.
7) Como você vê a profissionalização do roteirista no quadro da produção de cinema no Brasil?
Preta. Negra. Quase impossível. Não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Aqui temos uma situação inversa a dos EUA, onde o jovem roteirista dificilmente consegue chamar atenção entre os milhares de talentos tentando ser ouvidos. No Brasil a competição é muito menor, mas ao mesmo tempo a demanda por “roteiros de especulação” é praticamente zero. Portanto é sempre muito, muito difícil. Agora, se enormes desafios como estes fossem motivos para os verdadeiros artistas deixarem de criar estaríamos perdidos.
O que você recomendaria para um jovem cineasta nessas terras abaixo do Equador?
Independente de geografia norte-sul: tenha a disciplina e energia de criar uma obra grande, pessoal, sua. Tenha a paciência de levar seu roteiro bem mais longe do que você mesmo esperava, de não parar no razoável, no “dá-para-filmar”. Vá até o seu melhor. Reconheça que vai ser muito difícil, tanto a criação quanto a realização. Muito mais difícil do que você imaginou; e o seu segundo, terceiro e décimo roteiros serão cada vez mais difíceis. Tem um velho ditado Sufi: “de quem fez nada hoje, nada será exigido amanhã. De quem fez algo hoje, mais será exigido amanhã.”
9) Você é um artista de múltiplas faces. Fale um pouco sobre suas outras atividades.
A minha principal outra atividade é a pintura. Trabalho no meu ateliê – no charmoso Morro da Conceição, no Centro do Rio (mais info, fotos e etc. em www.moss.com.br) – exclusivamente com minerais e terras de Minas Gerais. Minhas outras grandes paixões culturais são música e boa comida.
10) Qual seu próximo projeto?
Nas artes plásticas estou ainda no meio do último projeto: em 9 de junho inaugurei uma mostra individual no Museu Nacional de Belas Artes, chamado Geologia Interior. A mostra vai até o dia 4 de agosto. Ao mesmo tempo, estou preparando um pequeno filme sobre este trabalho de artista plástico, com filmagens dentro das minas de Minas, colhendo minerais, pintando-os na serra perto de Lavras Novas, trabalhando no ateliê no Rio e depois a exposição no Museu.
Sobre Hugo Moss
Hugo Moss é inglês e mora no Brasil desde 1987. Seus serviços de consultoria (análise técnica, assessoria e outros trabalhos de criação) e tradução especializada de roteiros são conhecidos pela maioria de produtoras, cineastas e roteiristas brasileiros. Em 2001 lançou o curso on-line “O Roteiro de Cinema – uma introdução”, no site www.roteirista.com.