Prefácio de Impressões de Viagem – CPC, vanguarda e desbunde

Prefácio

Companheiro na viagem, quem sabe não valha a pena relatar também algumas impressões. Todas, qual uma revoada de pássaros à beira da noite, imobilizam-se na mais significativa, na mais escura. Noite.

Viagem. Mais atraente do que chegar aos lugares é transitar entre um e outro. Deixei-me onde parti. Intervalei-me.

Numa cabine de trem, com um projetor de slides: Duas telas: uma dentro, outra fora. A de dentro é uma tela escura, por trás da retina, onde o pensamento é uma idéia de bruma. A de fora é a janela da cabine. A projeção é simultânea.

Nelas passa um país qualquer, que até pode ser este.

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Li, com paixão, este livro. Compadeci-me de mim e tentei a barricada do texto acima. A percepção de que você e o outro são passíveis de entendimento é insuportável. Ocultar-se.

Mas ocultar-se como, se a inteligência destas páginas é vertiginosa luz do meio-dia, a arrancar-me de mim, Caim, para o lado do outro?

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ou, ainda mais prosaicamente,
Companheira na viagem

Terei lido poucos ensaios com a paixão com que li o de Heloisa. Em conversa, acho que lhe transmiti tal sentimento, o que, junto com a amizade fraterna de tantos anos, deve ter-me valido o carinhoso convite para escrever estas palavras. A princípio relutei (intimamente; não deixei a amiga perceber): sinto dificuldade em escrever este tipo de texto.

Não me incomodava o sacrifício, embora me preocupasse a necessidade de escamotear ao leitor o aspecto laborioso que os textos concebidos com sacrifício geralmente exibem.

O sacrifício foi nenhum.

Detenho-me na frase e procuro a causa. Vou encontrá-la numa característica deste estudo admirável: o prazer que ele libera; e libera por uma razão simples: porque foi concebido no prazer. Este livro toma o partido da vida. Heloísa fala, com a inteligência das coisas bem vividas, do tempo em que viveu e vive. E, nem por isto, sua percepção é limitadoramente realista.

O relato crítico que nos dá desses anos tão contraditórios é o produto de virtudes intelectuais que dificilmente se encontram reunidas. De um lado, a extrema sensibilidade da autora para a criação nova, que lhe permite reconhecê-la, de imediato, compreender e valorizar; de outro, o bom senso, a justa medida, que lhe conferem, com igual presteza, a consciência de quando esta criação se torna voluntarista e se anula, por se “querer” nova, ou se atrela, sem nervo crítico, à intencionalidade ideológica.

São qualidades que fazem confiável a crítica de Helô; e, por isto mesmo, tornam-na desde já — o que é mais importante — elemento da criação em nossos dias.

E o estilo? O leitor que me desculpe, faltando-me o próprio, repetirei novamente o adjetivo admirável. Admiro nele a natureza simples, veraz, clara, sintética – resultante dos atributos de prazer e vivência já referidos. Ao considerá-lo, convém lembrar o propósito que a autora revela, ao longo de suas páginas, de recuperar a narração testemunhada, voz que quase não se ouve mais nos dias de hoje (por obra e graça do medo e dos tiranos, berram das galerias).

E há ainda no livro razões de sobra para que nós, do ofício, sejamos gratos à autora. No livro e fora dele: Heloísa não acreditou no atestado de óbito quase unânime que andaram passando à poesia.

Francisco Alvim
Setembro, 1978