Quarta-capa do livro Impressões de Viagem – CPC, vanguarda e desbunde

No Brasil, ou na América Latina, o passado tem algo do homem-borracha, das histórias de gibi. Ele se estica, se estica, para confundir o presente, ou para não deixá-lo se colorir de futuro. Até quando o passado será o devenir da nossa condição político-cultural? A (re)leitura em pleno novo milênio das Impressões de viagem nos anos 60/70, que Heloisa Buarque de Hollanda lançou em 1980, é de uma atualidade que atordoa e humilha em 2004. Atordoa e humilha porque Heloisa conseguiu transcrever com conhecimento de causa, alegria e bom humor, na década da abertura, os desvarios dos anos de chumbo que, por sua vez, estão sendo (re)vividos como a realidade da república cultural de Gilberto Gil. Então, para quando o salto? A resposta dos novos saltimbancos não deve estar no livro que iremos (re)ler. Ainda bem. Mas se os novos saltimbancos já estiverem nas ruas, é bom que o leiam pela primeira vez. Só assim poderão dar o salto sem nos imitar ad nauseam.

Silviano Santiago