Uma companhia teatral existir no Brasil já não é algo totalmente comum. Uma companhia existir sem ser apenas a vontade de um diretor, mas mantendo-se como um grupo coeso de oito pessoas, é um fato ainda mais raro. E uma companhia assim se manter durante 18 anos é uma exceção que merece ser bastante comemorada. O grupo, formado pelos atores Enrique Diaz, Bel Garcia, César Augusto, Drica Moraes, Gustavo Gasparani, Marcelo Olinto, Marcelo Valle e Susana Ribeiro, vai lançar um livro e reestreiar dois espetáculos do seu repertório.
Ensaio.Hamlet, uma versão bem própria de Hamlet – uma “desmontagem” do clássico de Shakespeare, que volta dia 11 de agosto, também no Teatro do Jockey, depois de passar pelos palcos da Colômbia, Nova Iorque, Espanha, Rússia, França, Alemanha e Bulgária. Espetáculo, que além dos prêmios nacionais, passou por vários palcos do Brasil e acaba de receber oPrêmio da Crítica Francesa de Melhor Espetáculo Estrangeiro de 2005.
De todos os projetos, o livro é, naturalmente, o que tem o olhar mais voltado para os 18 anos que se passaram, contados a partir da estréia deRua Cordelier. Com 172 páginas de texto e 100 de fotos, programação visual da Tecnopop e edição da Aeroplano, na companhia dos atores (com minúsculas mesmo) reúne artigos de integrantes da companhia sobre temas específicos, artigos de gente que colaborou (e colabora) com o grupo, como o dramaturgo Filipe Miguez e o diretor Gilberto Gawronski, ensaios de estudiosos do teatro brasileiro como Silvia Fernandes, além dos textos na íntegra de A Bao A Qu e Melodrama e de uma minuciosa cronologia. Assim, o livro foge do caminho óbvio de apenas recontar a trajetória peça a peça, embora ofereça um bom panorama do teatro carioca e brasileiro de 1988 para cá.
Tanto a edição do livro quanto a reestréia de Ensaio.Hamlet e Melodrama no Rio de Janeiro e a manutenção da sede do grupo são frutos da parceria da Cia. dos Atores com a Petrobrás. Em 2006, a empresa começou a patrocinar os projetos da companhia, contemplando inclusive iniciativas de menor visibilidade como a sede e uma oficina de interpretação permanente gratuita com os integrantes da companhia. A sede será inaugurada oficialmente com o lançamento do livro em julho deste ano.
Essa possibilidade de realizar trabalhos fora ou, no sentido inverso, receber artistas de fora é uma característica da Cia. dos Atores, mas está longe de ser a mais marcante. O grupo se afirmou como um dos mais importantes e originais do teatro brasileiro graças a outras marcas. Por exemplo: um forte “processo colaborativo”, como chamam os atores a prática de todos influírem no resultado dos trabalhos, trazendo contribuições, dividindo-se em subgrupos de pesquisa, trocando e acrescentando idéias até que, a partir de um certo momento, o diretor passe a fazer um trabalho de edição e organização do material.
Outra marca, bem adequada a uma companhia que já montou duas peças de Oswald de Andrade (A morta e O rei da vela), é a antropofagia ampla, geral e irrestrita. Ou seja, tudo pode ser apropriado e reciclado para um espetáculo, sem que se precise fazer contextualizações históricas acerca de cada elemento utilizado. Uma marca estética é a combinação de vários fluxos narrativos numa só peça. Em Melodrama, por exemplo, os núcleos da família, da novela de rádio e da dupla ébrio/amnésico se entrecruzam todo o tempo. Esta é uma característica de todos os trabalhos, assim como é a metalinguagem: o processo de construção do espetáculo faz parte do próprio espetáculo; a arte, em especial o teatro, é o instrumento dos personagens para tentar se relacionar com o mundo.
Falar dos dias de hoje encenando Hamlet é o que dez entre dez diretores querem fazer. Mas preocupar-se com uma suposta fidelidade a Shakespeare, montar a peça aceitando-a como um clássico intocável pode ser o caminho mais longo para se atingir o objetivo. A Cia. dos Atores pensou numa “desmontagem” de Hamlet no sentido de extrair das muitas questões da peça matéria-prima para se pensar o homem de hoje – e, possivelmente, de sempre.
Ensaio.HAMLET
Inspirado na obra de William Shakespeare
“Nem sempre eu encontro nas montagens de Hamlet e nos filmes elementos que possam ser reveladores das questões do homem de hoje. No nosso caso, a trama básica vai estar presente, mas queremos tirar a peça do Olimpo, aproximá-la da nossa realidade”, diz Enrique. Mas essa aproximação não passa por fazer uma mera transposição da história para o século XXI, expediente tão desinteressante para a companhia quanto seria vestir os atores com roupas de época e situá-los num longínquo 1600. Parte-se do fato de que as percepções (de tempo, espaço, tudo) no mundo de hoje são completamente diferentes das da época de Shakespeare para se trazer para o campo do homem contemporâneo as angústias dos personagens.
As vivências dos atores são parte desse processo. Em uma cena, por exemplo, a atriz Bel Garcia revira um monte de cartas reais de amor, praguejando contra a situação de Ofélia diante de Hamlet. Até que encontra a carta que existe de fato na peça, escrita pelo príncipe para Ofélia, e a interpreta. Superposições como esta aparecem com freqüência emEnsaio.Hamlet.
Enrique dirige seis atores, três da própria companhia (Bel, Cesar Augusto e Marcelo Olinto) e três de fora (Malu Galli e Felipe Rocha, que já vem atuando com o grupo, e Emílio de Mello), todos eles fazendo vários personagens. Um dos objetivos da encenação é explorar as muitas “dobras, reflexões e projeções” da história, segundo classifica Enrique: “Metalinguagem não é só brincar de Pirandello. É tratar a vida como um grande teatro, como Shakespeare dizia. Na peça, há metalinguagens explícitas relacionadas ao teatro. Para nós, esse é um material riquíssimo, infinito”.
Prêmios:
APCA/ SP – Melhor espetáculo de 2004
SHELL/ RJ – Melhor direção – 2004
Qualidade Brasil 2004 / RJ – Melhor Espetáculo,
direção e ator Fernando Eiras
Melhor espetáculo estrangeiro de 2005 dado pela Crítica francesa
Temporada: de 11 a 27 de agosto de 2006
Local: Teatro do Jockey/Centro de Referência do Teatro Infantil