Carnaval é reviravolta de valores sociais (Jornal O Globo /21 de fevereiro de 2009)
Organizadoras de livro sobre a festa dizem que ela põe conflitos em pauta e abre espaço para mudança.
Entrevista Maria Laura Cavalcanti e Renata Gonçalves
Em 2009 se completam 30 anos do lançamento de “Carnavais, malandros e heróis” (Rocco), o clássico da antropologia brasileira em que Roberto DaMatta tomou a festa como chave de leitura da sociedade nacional. O trabalho, pioneiro, contribuiu para fazer do carnaval um objeto de estudo legítimo dentro da academia brasileira. É dentro dessa tradição que se inscrevem os artigos do recém-lançado “Carnaval em múltiplos planos” (Aeroplano/Faperj).
O livro reúne uma amostra das diversas maneiras como a festa é pesquisada hoje nas universidades brasileiras. Organizadoras do volume, Maria Laura Cavalcanti e Renata Gonçalves conversaram com o GLOBO sobre a obra, que é dedicada a DaMatta.
O GLOBO: O carnaval é tradicionalmente pensado como um momento de inversão dos valores e das práticas sociais cotidianos. Essa avaliação ainda se aplica aos desfiles no Rio?
RENATA GONÇALVES: A idéia da inversão, já na década de 1970 muito bem explorada pelo antropólogo Roberto DaMatta, é por vezes banalizada. Inversão não significa unicamente que o pobre pode viver seus momentos de nobre ou que os homens se fantasiam de mulheres e que o carnaval por isso tende ao conformismo. O carnaval também produz experiências, cria e transforma. É uma reviravolta de valores sociais com todos os conflitos e contrastes em pauta. Permite que nos enxerguemos por meio de prismas que não estão presentes no cotidiano, evidencia o que somos, de modo a inclusive podermos discordar e propor novas formas de ser socialmente.
MARIA LAURA CAVALCANTI: O carnaval, como todo ritual, é um período excepcional de tempo e oferece múltiplas possibilidades simultâneas de experiência. A inversão é uma das possibilidades desse tempo extraordinário e lúdico. E é claro que a ordem social e as hierarquias se fazem também presente nele de formas variadas. No caso das escolas de samba é importante perceber a força do mecanismo competitivo: um campeonato anual que supõe a existência de regras consensualmente reafirmadas a cada ano. Isso estabelece um campo em que florescem valores como o bom desempenho, o talento, o mérito, o reconhecimento profissional, o empenho, numa sociedade em que nem sempre esses valores são hegemônicos. Brincar é coisa séria.
O GLOBO: O carnaval do sambódromo ganhou mais espaço no livro do que o dos blocos do Rio de Janeiro. Isso foi uma opção de organização?
MARIA LAURA: Eu adoro os blocos, e sei que a Renata também! E o livro é um convite a mais pesquisas. Mas, de modo geral, não importa quantos adeptos eles reúnam em suas saídas pelas ruas da cidade, seu núcleo organizacional é geralmente um grupo de amigos ou vizinhos que “puxa” um bloco. O carnaval das escolas de samba, por sua vez, possui um grau de elaboração estética único. Ao mesmo tempo, a relevância das escolas de samba na história da conformação mesma do Rio de Janeiro moderno é sabida e notória. Elas surgem, desde seus primórdios, agregando e reunindo camadas sociais diferentes. Sua capacidade de articulação social, de estabelecer canais de mediação entre diferentes bairros e regiões da cidade, entre morro e asfalto, é ímpar. Numa escola de samba sempre se lida com aquilo que é diferente de você mesmo. Elas integram com seu carnaval milhares de pessoas numa troca social tensa e potencialmente muito construtiva. Nada mais fundamental para a vida urbana do que isso.
O GLOBO: A presença dos bicheiros no comando do carnaval leva Maria Laura a qualificá-lo, em seu artigo, como “um ritual que é também de degradação”. Poderia comentar as consequências dessa oficialização da contravenção?
MARIA LAURA: Como representante das grandes escolas, a Liga assina anualmente com a Prefeitura um contrato para a gestão do Sambódromo durante o carnaval e com isso os bicheiros ganharam grande prestígio, poder de mando e visibilidade social. Passam pelas mãos da Liga vultosas somas de dinheiro. Essa presença é profundamente ambivalente: a um só tempo produtiva e poluidora. De tempos em tempos, as atividades ilegais e criminosas a que também se dedicam os patronos/banqueiros de bicho emergem na cena pública e atingem a organização do carnaval citadino de modo dramático, como ocorreu em 2008, ou em 1994. Desde os anos 1970, o banqueiro do jogo do bicho, e hoje em dia cada vez mais, dos jogos de azar e caça-níqueis, integra uma estrutura organizada de poder clandestino, com inserções de corrupção articuladas junto a diversas esferas do poder público. As escolas são, desse ponto de vista, um trampolim e um troféu, pois o bicheiro almeja o reconhecimento social. Muito mais destrutiva é a presença mais fragmentária do tráfico que se imiscui nas atividades das escolas desde dentro de suas bases, atingindo brutalmente áreas nobres da vida de uma escola de samba, como a seleção dos sambas-enredo ou mesmo as baterias. São assuntos graves sobre os quais é preciso, antes de mais nada, falar e compreender para tentar cuidar.
O GLOBO: Renata faz uma minuciosa leitura sobre os casais de mestre-sala e porta-bandeira, identificados como elemento de permanência em meio à constante transformação do carnaval. Poderia falar um pouco sobre o significado desse par?
RENATA: O casal representa o lugar de uma “tradição” expressa por meio de suas roupas alegoricamente majestosas, por seus gestos nobres e contidos, desempenhando a importante função de “relações públicas” da escola. O casal só pode ser compreendido no conjunto da escola, pois é a dupla que se esforça em manter uma comunicação ampla interna e externa à cada comunidade, ao longo de todo o ano em suas diversas atividades, como ensaios, apresentações, visitas a outras escolas. No desfile, essa função adquire sua dimensão máxima. Nele, o casal não apenas porta, mas coloca em movimento e em comunicação a bandeira da escola, que não está em um mastro ou estendida em um carro alegórico, mas que também desfila dançando. Ao contrário das surpresas sempre esperadas pelo público que quer ver como a escola desenvolveu seu enredo, quais serão as novidades nas alas, como serão os carros alegóricos, deseja-se que o casal venha lindo e majestoso bailando no chão, sem muitas inovações. É o lugar tradicional do casal que marca, em múltiplos planos, a continuidade de uma escola de samba em mais um giro do ano carnavalesco.
O GLOBO: Um dos artigos do livro, de Ricardo José de Oliveira Barbieri, analisa os efeitos da transferência dos barracões para a Cidade do Samba. Quais são as conclusões mais significativas da pesquisa, na opinião de vocês?
MARIA LAURA: A Cidade do Samba deu excelente apoio e infraestrutura de trabalho para os artistas e trabalhadores dos barracões das hoje 12 escolas do grupo especial. Entrar nesse grupo e, sobretudo, manter-se nele é uma façanha cada vez mais difícil. É preciso lembrar que há mais de 70 escolas no Rio de Janeiro, muitas lutando com imensas dificuldades. Uma consequência então é o aumento da distância já existente entre as do Grupo Especial, representadas pela Liga Independente, e as demais. Nas atuais circunstâncias, a Cidade do Samba aumentou ainda mais, digamos, o cacife da Liga, reforçando um discurso de “carnaval-negócio-rico-e-rentável” que não só não corresponde à realidade bem mais complexa das grandes escolas como parece ser muito difícil de ser ampliado para todos os grupos. As demais escolas precisam achar caminhos novos.